{"id":1835,"date":"2024-08-26T13:16:00","date_gmt":"2024-08-26T16:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/aprendahoje.site\/?p=1835"},"modified":"2024-08-26T13:16:00","modified_gmt":"2024-08-26T16:16:00","slug":"saude-mental-dunker-olimpiadas-saude-mental-e-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bvs.nesp.unb.br\/index.php\/2024\/08\/26\/saude-mental-dunker-olimpiadas-saude-mental-e-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental | Dunker: Olimp\u00edadas, sa\u00fade mental e neoliberalismo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Uma vis\u00e3o psicanal\u00edtica sobre os esportes ol\u00edmpicos e como eles refletem a sociedade desigual e ultracompetitiva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mundo pode assistir, em Paris, a parte da hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o de uma das maiores ginastas de todos os tempos. A estadunidense Simone Biles, que havia abandonado algumas das competi\u00e7\u00f5es nas Olimp\u00edadas de 2020 em T\u00f3quio para tratar sua sa\u00fade mental, voltou em 2024 em todo o seu esplendor. Recebeu quatro medalhas, tr\u00eas delas de ouro. E protagonizou uma das cenas mais ic\u00f4nicas dos jogos, durante a vit\u00f3ria de Rebeca Andrade na final do solo. Ao subir no segundo degrau do p\u00f3dio \u2013 o primeiro da gin\u00e1stica com tr\u00eas mulheres negras em Olimp\u00edadas \u2013, prestou uma bela rever\u00eancia \u00e0 brasileira vencedora do ouro, junto de sua conterr\u00e2nea Jordan Chiles. Ao final, esta \u00faltima perdeu sua medalha de bronze para a atleta romena Ana Barbosu, ap\u00f3s pedido de revis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para falar sobre esse e outros momentos simb\u00f3licos dos Jogos Ol\u00edmpicos de Paris, o programa Outras Palavras TV recebeu um convidado ilustre: o psicanalista e professor da USP Christian Dunker. Sua entrevista nos ajuda a compreender o que h\u00e1 de revelador \u2013 tanto de nossa alma quanto dos tempos atuais \u2013 em um evento esportivo acompanhado por milh\u00f5es de pessoas mundo afora. Dunker come\u00e7a refletindo sobre a li\u00e7\u00e3o dada por Simone Biles: a possibilidade de dizer n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele analisa: \u201cFoi importante pelo fato de ela poder ter se respeitado, naquele momento, contrariando uma s\u00e9rie de expectativas, inclusive econ\u00f4micas, do pa\u00eds que ela representava. Mas tamb\u00e9m por esse \u2018n\u00e3o\u2019 n\u00e3o significar uma recusa, mas uma prepara\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, para poder aceitar e ir em frente, voc\u00ea precisa ter essa sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o est\u00e1 obrigado a fazer\u201d. Esse cap\u00edtulo foi, como observamos hoje, parte da transforma\u00e7\u00e3o geral que Simone pode dar em sua vida. Dunker completa: \u201cInclusive, a defer\u00eancia que ela faz a Rebeca \u00e9 parte disso. Ou seja, parte de que cada qual deve fazer o seu melhor inclui reconhecer aqueles que naquele dia estavam melhores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve ainda outras cenas marcantes durante a gin\u00e1stica art\u00edstica, em especial no time brasileiro. As cinco ginastas (Fl\u00e1via Saraiva, Jade Barbosa, J\u00falia Soares, Lorrane Oliveira, al\u00e9m da pr\u00f3pria Rebeca) receberam uma medalha de bronze muito celebrada na competi\u00e7\u00e3o por equipes. Mas seu companheirismo foi al\u00e9m: era vis\u00edvel o apoio m\u00fatuo que ofereciam umas \u00e0s outras. Essas cenas mostram que \u00e9 poss\u00edvel, no esporte, ir al\u00e9m da ultracompetitividade. A solidariedade tamb\u00e9m desponta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O papel do incerto<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dunker chama aten\u00e7\u00e3o para outro fator contido nas comemora\u00e7\u00f5es vibrantes entre as atletas: a percep\u00e7\u00e3o da conting\u00eancia, o imprevisto, o incerto. \u201cO discurso da meritocracia acabou excluindo a conting\u00eancia\u201d, reflete o psicanalista. \u201cPara esse discurso, se voc\u00ea for super mega duper, voc\u00ea vai ganhar, porque tudo que aconteceu de sucesso na sua vida est\u00e1 referido a pequenos atos que voc\u00ea tomou. \u00c9 falso. \u00c9 uma conting\u00eancia que faz com que, se a atleta fizer o mesmo salto cem vezes, em parte delas vai dar certo, em outras, errado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O surfe \u00e9 outro esporte que ajuda a pensar sobre como a vida est\u00e1 subordinada ao inesperado. O atleta Gabriel Medina, favorito para subir no topo do p\u00f3dio, n\u00e3o conseguiu passar para a final porque, durante 15 minutos de sua prova, n\u00e3o houve onda para ser surfada. Segundo Dunker, \u201cPelas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es do esporte, ele coloca esse elemento: a conting\u00eancia. Ela pode ser vista como uma sensa\u00e7\u00e3o de \u2018fui escolhido pelos deuses\u2019 ou como uma grande li\u00e7\u00e3o de humildade. Por que veio aquela onda? Diminui o tamanho do ego, aumenta o tamanho da onda. E a li\u00e7\u00e3o fica para todo mundo, porque todos que fazem surfe a s\u00e9rio sabem que essa \u00e9 parte da beleza e da tristeza daquele dia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Competi\u00e7\u00e3o, masculinidade e viol\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o que h\u00e1 de mais cruel e competitivo tamb\u00e9m desponta em um evento como as Olimp\u00edadas. A press\u00e3o por ser um vencedor apesar de tudo. \u201cDepois de um certo n\u00edvel, entre atletas de alto desempenho, o que acontece \u00e9 um medo de n\u00e3o ganhar, n\u00e3o mais o desejo de vencer.\u201d Dunker prossegue: \u201cVoc\u00ea entra numa outra gram\u00e1tica que, no fundo, reflete muito das nossas conflitivas sociais\u201d, de nunca se considerar suficiente, de tratar quest\u00f5es de sa\u00fade como viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed entra tamb\u00e9m a quest\u00e3o do cuidado com a sa\u00fade mental dos atletas. Em contraste com a atitude de Simone Biles, de se retirar para cuidar de si, uma frase recente de um jogador de futebol mostra outro lado da moeda. Em entrevista \u00e0 revista Placar, Endrick afirmou que \u201cmeus psic\u00f3logos s\u00e3o Deus e minha fam\u00edlia\u201d. Dunker lamenta essa vis\u00e3o, que considera antiga e que v\u00ea sa\u00eddas para problemas emocionais ou na medicaliza\u00e7\u00e3o ou na moraliza\u00e7\u00e3o. Entre os homens, em especial, h\u00e1 uma vis\u00e3o de que vulnerabilidades s\u00e3o fraquezas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cIsso termina em viol\u00eancia\u201d, alerta Dunker, \u201cporque se a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de for\u00e7a ou fraqueza, de autodom\u00ednio e de controle, eu vou agir pelos meios da agressividade e da destrutividade. \u00c9 assim que o pensamento moral lida com as coisas\u201d. \u00c9 poss\u00edvel concluir que da\u00ed tamb\u00e9m parte a viol\u00eancia destinada aos perdedores. O que tamb\u00e9m levanta a quest\u00e3o do que vem depois de vencer, que, segundo Dunker, \u00e9 o que torna essa condi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i tr\u00e1gica. \u201cNo fundo, o meritocr\u00e1tico eg\u00f3latra percebe que ele nunca tem hist\u00f3ria. S\u00f3 vale a \u00faltima conquista.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SUS contra a \u201csa\u00fade mental\u201d neoliberal<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na parte final do programa, um desvio dos esportes ol\u00edmpicos. A hoje t\u00e3o midi\u00e1tica sa\u00fade mental ser\u00e1 a sa\u00edda para o mal estar da competitividade neoliberal? \u201cPrimeiro, a gente tem que olhar para o neoliberalismo como um agente etiol\u00f3gico. A forma com que a gente trabalha e consome produz sintomas\u201d, alerta Dunker. E, na etapa atual, de sobreposi\u00e7\u00e3o de crises demogr\u00e1ficas, pol\u00edticas e institucionais, o sistema encontrou um bom jeito de funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas palavras do psicanalista: \u201cO capitalismo descobriu que aumentar o sofrimento das pessoas faz com que elas trabalhem mais. Quando elas v\u00e3o virando baga\u00e7o, s\u00e3o substitu\u00eddas por outras\u201d. E, depois, conseguiu descobrir como extrair riqueza do sofrimento que ele mesmo produz: com a medicaliza\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um pouco como a Monsanto e a Bayer: cria subst\u00e2ncias que produzem o c\u00e2ncer e depois vende rem\u00e9dios para a cura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUm ant\u00eddoto para isso \u00e9 o SUS\u201d, defende Dunker, apontando para as diretrizes da Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (RAPS). Ele lista as tr\u00eas: \u201ca sa\u00fade mental precisa de territ\u00f3rio, nada de a\u00e7\u00f5es globais. Tem que ir l\u00e1 na empresa, na escola, na fam\u00edlia\u201d. Em segundo lugar, a sa\u00fade mental precisa ser tratada em rede: \u201cn\u00e3o \u00e9 pela individualiza\u00e7\u00e3o, pelo especialista, pela atitude do consumidor\u201d. E, em terceiro, as pr\u00e1ticas de cuidado interpessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA sua pr\u00e1tica em sa\u00fade mental est\u00e1 envolvendo cuidado, est\u00e1 sendo feita em rede, est\u00e1 ligada ao territ\u00f3rio, ou voc\u00ea est\u00e1 comprando algum enlatado para moldar sua subjetividade em uma nova disciplina moral?\u201d, questiona o entrevistado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/08\/26\/dunker-olimpiadas-saude-mental-e-neoliberalismo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Brasil de Fato&nbsp;<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vis\u00e3o psicanal\u00edtica sobre os esportes ol\u00edmpicos e como eles refletem a sociedade desigual e ultracompetitiva O mundo pode assistir, em Paris, a parte da hist\u00f3ria de reden\u00e7\u00e3o de uma das maiores ginastas de todos os tempos. 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